28 de dezembro, 2022 ines.gaiola@c21tipyfamily.com

Preço das casas de luxo a descer? “Começa a haver um ajustamento”

Que excentricidades exigem os compradores de casas de luxo? Filipe Lourenço, CEO da Private Luxury Real Estate, conta tudo.

Se há setor da economia que tem dado boa resposta às “intempéries” mais recentes com que se debateu o mundo – primeiro a pandemia e agora o conflito na Ucrânia, que fez disparar, por exemplo, a taxa de inflação e veio por um travão no poder de compra – é o imobiliário. Nomeadamente o segmento de luxo, que continua a dar sinais de resiliência. Os preços, no entanto, começam já a sofrer um ajustamento, reconhece ao idealista/news Filipe Lourenço, CEO da Private Luxury Real Estate (PLRE), salientando, no entanto, que o interesse pelo mercado de gama alta em Portugal veio para ficar.

O responsável considera que a escolha por Portugal por parte dos investidores imobiliários, de certa forma, até ganhou força com o estalar da invasão da Rússia à Ucrânia, dada a situação geográfica do país, longe do conflito e numa ponta da Europa. Mas também há, claro, muitas incertezas a ter em conta.

“Não podemos esquecer que estamos a atravessar uma situação financeira um pouco ‘chata’. Não é o nosso segmento, mas o mercado médio, médio-baixo vai ser impactado. E não posso dizer que isso acontece em separado e que ninguém toca no mercado alto, isso não é verdade. Vai começar a haver alguns ativos que vamos ter de escoar, principalmente da banca, e quando digo nós, é mediação imobiliária. Essa entrada de imóveis paralelamente vai afetar, se calhar, a subida dos preços, como estávamos a sentir até agora. Se calhar começamos a sentir um ajustamento, até porque muitas pessoas, estrangeiros ou portugueses, não vivem só do mercado imobiliário do luxo, são pessoas que têm grandes restaurantes, grandes empresas. Ou seja, se o mercado em geral perde poder de compra, isso automaticamente afeta o segmento, pelo que haverá um ajustamento no mercado de luxo”, antecipa Filipe Lourenço.

“O que estamos a sentir agora é a entrada de leads, que reduziu bastante. No entanto, há mais qualificação, já não é tão massivo. Há uma resistência à tomada de decisão, que é mais ponderada”

E será que pelo facto de os preços dos imóveis estarem a estabilizar o interesse dos investidores vai aumentar, havendo assim ainda mais transações concluídas? Sim, responde o CEO da consultora especializada na comercialização de imóveis de luxo nas zonas mais premium de Portugal. Lembra, contudo, que a forma de pensar dos potenciais compradores pode retrair-se um pouco face ao atual contexto económico: “Querem ver o que se vai passar. O que estamos a sentir agora é a entrada de leads, que reduziu bastante. No entanto, há mais qualificação, já não é tão massivo. Há uma resistência à tomada de decisão, que é mais ponderada”.

Mediação imobiliária em Portugal
Filipe Lourenço, CEO da Private Luxury Real Estate PLRECrédito: PLRE

“Trabalhamos mais com investidores particulares”

Durante a conversa, que decorreu no escritório/loja da Avenida da Liberdade, por onde entram, em média, três potenciais clientes por dia, Filipe Lourenço faz questão de distinguir os dois tipos de investidores que contactam a PLRE, até porque procuram ativos distintos e têm interesses diferentes.

“Os investidores institucionais recorrem mais à banca. Nós trabalhamos muito mais com os particulares, com as famílias que querem comprar casa. Não quer dizer que não trabalhemos com investidores que nos procuram para fazer apartamentos, condomínios etc. Temos até três projetos em cima da mesa, nomeadamente de hotéis, sendo que há uma procura grande de projetos para resorts na zona de Cascais e Comporta, e aí sim é institucional puro”.

E será que é possível levantar um pouco o véu sobre os três projetos em causa? “Estamos com a análise de três projetos imobiliários com três empresas diferentes para ecoresorts na zona da Costa de Caparica, Sesimbra e Comporta. Estamos a falar de projetos na ordem dos 30 milhões de euros, outro de 28 milhões e outro de 10 milhões. São terrenos e estamos a ver a viabilidade de fazer os já referidos ecoresorts, sendo que um dos investidores é americano”, conta.

Casas de luxo à venda em Portugal
Empreendimento Brazil Residences, em CascaisPLRE

Que excentricidades solicitam os clientes?

O CEO da PLRE adianta que as excentricidades pedidas pelos clientes na hora de comprar uma casa de luxo em Portugal são, de forma geral, as mesmas de sempre, não havendo grandes novidades. “Há uma coisa que não é possível em Portugal, que é por heliportos em cima das moradias”, explica, sublinhando que é um pedido feito sobretudo por parte de potenciais clientes brasileiros.

Ainda assim, Filipe Lourenço destaca alguns pedidos especiais solicitados pelos clientes:

  • “Procuram casas em que os proprietários possam ter os seus veleiros não nas marinas, mas em portos em frente à casa. Estamos a falar de veleiros com 30, 40 metros de comprimento;
  • Temos muita excentricidade de famílias quererem viver em palácios com história. Está a ser cada vez mais procurada a questão do caráter das propriedades;
  • Depois temos outro tipo de excentricidades, como por exemplo ter na sala de jantar uma abertura onde haja uma cave grande que abra automaticamente e que se possa descer, sendo que quem estiver na parte de cima pode ver toda a garrafeira exposta”.

Portugal ainda está na moda? Sim, “mas tudo tem um ciclo”

Há muito tempo que os vários players do mercado, nomeadamente os que atuam no segmento de gama alta, dizem que Portugal passou a estar na moda e a ser um destino atrativo para os investidores. Será que a tendência se vai manter, ou o país corre o risco de deixar de estar no radar?

“Tudo tem um ciclo. Mas isto não será um ciclo de: Portugal estava aqui [no topo] e agora desapareceu. Não é este tipo de ciclo. Mas também não podemos ser arrogantes e pensar que somos Portugal e que somos o melhor país do mundo etc. (…)”

“Tudo tem um ciclo. Mas isto não será um ciclo de: Portugal estava aqui [no topo] e agora desapareceu. Não é este tipo de ciclo. Mas também não podemos ser arrogantes e pensar que somos Portugal e que somos o melhor país do mundo etc. O Golden Visa e todas as questões de instabilidade e fiscalidade que existem afetarão sempre um pouco, mas Portugal é um pequeno paraíso. Eu viajo imenso e cada vez gosto mais de Portugal. E digo isto não por ser português, mas porque realmente vive-se muito bem aqui. E essa descoberta pelo que é Portugal, esquecendo um pouco o mercado imobiliário, é fantástica”, diz.

Apartamentos de luxo em Lisboa
Este apartamento T9 está à venda no coração de LisboaPLRE

Aposta na formação rumo ao profissionalismo da mediação

Em jeito de mensagem final, Filipe Lourenço alerta para a importância de se apostar na formação dos consultores imobiliários e de profissionalizar o setor da mediação.

“O mercado está como está e temos de nos adaptar. Mas se tivermos a estratégia que existe em muitas empresas, que é a não formação ou a formação à responsabilidade do consultor, o mercado vai estar mal para muitas empresas e pessoas. Agora, se a preocupação for formar as pessoas ao mais alto nível, elas terão capacidade para fazer face às novas adaptações do mercado. E isso é extremamente importante até para profissionalizar cada vez mais a profissão. Para mim a aposta na formação é tudo”, remata.