7 de junho, 2022 ines.gaiola@c21tipyfamily.com

Queda do euro face ao dólar torna casas mais baratas para investidores

Com o dólar a valer mais, os investidores podem comprar casas no espaço europeu com menos dinheiro. Explicamos.

 mercado monetário está no centro de uma tempestade económica, um cenário que já está a afetar países europeus, como é o caso de Portugal e Espanha. Isto porque o euro perdeu cerca de 8% do seu valor face ao dólar, resultado de diversos fatores como é o caso dos aumentos das taxas de juro pela Reserva Federal dos EUA. E este cenário poderá repercutir-se no mercado imobiliário, até porque agora comprar casa fica mais barato no espaço europeu para quem as pagar em dólares. Explicamos.

Atualmente, a taxa de câmbio situa-se nos 1,07 unidades do dólar para cada euro, o menor valor desde 2017. E alguns bancos de investimento, como o JP Morgan, e empresas de análise, como a CMC Markets ou a Capital Economics, estimam que neste verão as duas moedas vão alcançar a paridade, o que seria um marco histórico para o século XXI.

Os especialistas consultados pelo idealista/news Espanha também veem este cenário como possível. E antecipam que terá consequências económicas e poderá até ter efeitos no mercado imobiliário.

Consequências da desvalorização do euro face ao dólar

Daniel Lacalle, economista-chefe da empresa de investimentos Tressis, afirma que “a queda do euro é a consequência direta da inação do BCE [Banco Central Europeu] em questões monetárias”, já que é um dos poucos bancos centrais do mundo que ainda não subiu as taxas de juros diretoras para conter a escalada da inflação. E acrescenta que “a Zona Euro passou de ‘superávit’ comercial (entradas de euros e vendas de dólares) para ‘déficit’ comercial (vendas de euros e compras de dólares). Portanto, a paridade é provável.” Este cenário, segundo Lacalle, faz com que “os custos dos produtos importados subam mais, a inflação aumente e o estatuto do euro como moeda solvente e de reserva mundial se esgote”.

Um ponto de vista que também é defendido por Miguel Córdoba. O professor de Economia Financeira da Universidade CEU-San Pablo destaca que “a desvalorização do euro em relação ao dólar é uma má notícia para a Espanha a nível global, pois carecemos de recursos energéticos e esses recursos são pagos em dólares no mercado”.

“Embora a depreciação da moeda signifique que as exportações possam aumentar – já que outros países que não estão na Zona Euro e que compram os nossos produtos vão pagar menos por eles e, portanto, poderão comprar mais -, um dólar mais caro vai encarecer de forma notável as nossas importações, especialmente as de gás, petróleo, semicondutores, matérias-primas, etc., que não temos em Espanha. E isso vai gerar ainda mais inflação do que já existe, sobretudo quando as empresas transferem esse aumento de custos para seu produto final”, sublinha Córdoba.

Um impulso à compras de casas em dólares

Além do efeito económico, consultores imobiliários e economistas acreditam que a equidade entre as duas moedas também pode ser sentida no setor imobiliário. Isto porque pode impulsionar a realização de negócios imobiliários por investidores e por quem tem a suas poupanças em dólares, já que agora comprar imóveis torna-se mais barato nessa moeda.

Manuel Romera, diretor do setor financeiro da IE Business School, explica que “para quem tem dinheiro em dólares, uma casa na Espanha agora custa menos do que há quatro meses só por causa do câmbio”. Na sua opinião, este cenário sugere um aumento da procura de imóveis, sobretudo nas zonas mais turísticas, onde compradores e investidores que têm o dólar como moeda base pois podem comprar a um bom preço e obter retorno, quer através da venda ou de arrendamentos futuros.

Luis Corral, CEO da Foro Consultores Inmobiliarios, também sublinha que “um câmbio favorável ajuda os compradores que costumam lidar com o dólar” e destaca o caso dos compradores latino-americanos. “O seu poder de compra aumenta ao reavalorizar a sua moeda, já que agora podem comprar com descontos de mais de 10% em relação ao ano passado”, diz Corral.

Na mesma linha, François Carriere, CEO do Coldwell Banker Spain, sustenta que “a desvalorização do euro face ao dólar é uma excelente notícia para os nossos clientes americanos, tanto do norte como do sul, que pensam adquirir propriedades em Espanha”. O CEO do Coldwell Banker Spain adianta que já está a sentir um aumento de pedidos de norte-americanos em zonas como Barcelona e Ibiza e calcula que “se a paridade for alcançada, a compra de imóveis seria 21% mais barata para todos os clientes que compram em dólares”.

Por seu turno, Bruno Cotta, diretor comercial da Engel & Völkers, considera que a atual taxa de câmbio aumenta a atratividade do mercado imobiliário espanhol, mas sobretudo em Madrid, “onde se observou um interesse crescente de mexicanos e argentinos após a pandemia”. “O preço das casas é ainda mais competitivo em relação aos imóveis localizados em outras cidades que historicamente têm sido destino de investimento para essas nacionalidades, como Miami, por exemplo”, explica ainda.

Raymond Torres, diretor de conjuntura da Fundación de las Cajas de Ahorros (Funcas), acrescenta ainda que a desvalorização do euro em relação ao dólar pode favorecer os investimentos dos países produtores de petróleo.

Recorde-se que esses perfis têm um peso reduzido no mercado imobiliário espanhol. Os dados mais recentes dos notários do país colocam os britânicos, alemães e franceses como os principais compradores de habitação em Espanha, depois de representarem quase um terço das operações realizadas por estrangeiros no segundo semestre de 2021, face aos 11,4% somados por todos os compradores que têm nacionalidades fora da União Europeia (UE).

Pressão para grandes investidores europeus

No caso dos investidores europeus e dos grandes investidores internacionais, com uma presença muito maior no mercado imobiliário espanhol, as previsões são diferentes: a debilidade do euro poderá levar os investidores a olhar para outros mercados.

Daniel Lacalle reconhece que “o setor imobiliário vai continuar a ser atrativo”, embora acredite que “pode ​​haver uma quebra dos fluxos internacionais com destino aos EUA, uma vez que a obrigação norte-americana a 10 anos dá mais rentabilidade do que a renda de um imóvel em Espanha ajustado pela moeda e inflação“. “O dinheiro já está a sair da Zona Euro para os EUA”, alerta o economista.

Também Raymond Torres, do Funcas, acredita que o setor imobiliário não vai perder o estatuto de alternativa de investimento interessante, embora alerte que “um dos desafios vem dos fundos que se endividaram em dólares e já investiram no mercado da Zona Euro (ou seja, em euros)”. Estes fundos, sublinha Torres, “têm agora de extrair dos seus investimentos um retorno suficiente (em euros) para fazer face aos custos financeiros (em dólares). E não será fácil, já que a moeda europeia desvalorizou cerca de 8% desde o início do ano”.

Miguel Córdoba recorda ainda que à medida que o euro se desvaloriza face ao dólar, “logicamente o valor dos ativos imobiliários espanhóis também vão desvalorizando face ao dólar, que, não esqueçamos, continua a ser a reserva básica e a moeda de transação a nível mundial. Não vamos notar essa desvalorização interna, mas pode haver movimentos transacionais para os grandes detentores de carteiras imobiliárias. Quem tem posições em Espanha pode sentir-se tentado a reduzir a sua exposição ao euro e transferir os seus investimentos para a zona do dólar”.

O economista insiste que “muitos dos investidores estrangeiros são europeus, sobretudo britânicos e alemães, e utilizam também o euro como moeda base. E os problemas da crise das matérias-primas e da inflação reduzem os seus rendimentos disponíveis, além da retirada de investimento devido ao efeito da incerteza, tanto económica quanto devido ao problema da guerra na Ucrânia”. De qualquer forma, considera que pode haver investidores internacionais que assumam posições mais especulativas no mercado espanhol, aproveitando o câmbio para comprar mais barato agora e vender os imóveis quando o euro voltar valorizar-se em relação ao dólar.

Burocracia, tributação e insegurança jurídica: os entraves ao investimento

Os especialistas consultados pelo idealista/news também referiram outros obstáculos que podem ser um travão a novos investimentos, entre os quais se destacam a tributação e a burocracia excessiva na Espanha, ou a crescente sensação de insegurança jurídica, especialmente em matéria de habitação.

Mikel Echavarren, CEO da consultora Colliers em Espanha e Portugal, defende que a enorme liquidez que existe atualmente no mercado deve evitar um impacto significativo nas decisões de investimento dos grandes players internacionais. No entanto, considera que, embora teoricamente possam existir vantagens para os investidores que utilizam o dólar como moeda de referência, “os riscos associados a Espanha, refletidos no prémio de risco e numa crescente sensação de insegurança jurídica, podem ser mais importantes do que os da situação de cotação de ambas as moedas”.

Além disso, especialistas sublinham que os aumentos previsíveis das taxas de juros pelo BCE aumentarão a atratividade de outras alternativas de investimento, como ações, o que poderá reduzir parcialmente o apetite do mercado por ativos imobiliários.

Nesse sentido, Córdoba destaca que “se as taxas de juros subirem significará uma competição por investimentos imobiliários que não existia há anos, pois não fazia sentido investir em renda fixa com taxas negativas, e apenas ficaram os investidores tradicionais na bolsa e no mercado imobiliário. Uma parte desses investimentos será gradualmente transferida para carteiras de renda fixa e isso fará com que os preços dos ativos imobiliários fiquem estagnados ou diminuídos”.

No entanto, os economistas acreditam que o setor imobiliário continuará no radar dos investidores e descartam uma fuga de capitais. “O imobiliário tem valor intrínseco. As ações podem cair 100%, enquanto os imóveis podem desvalorizar-se, mas sempre vão manter o seu valor de uso”, conclui o diretor de serviços financeiros da IE Business School.

 

Fonte: Idealista